Pular para o conteúdo principal

CAUSOS DE MINHA VÓ - parte 00


Sempre que falo que fui criada com Minha Vó, é claaaaro que as pessoas visualizam uma senhorinha baixotinha, fofinha, risonha, com dotes culinários de nível avaçado a fazer inveja a qualquer masterchief e mestra nas linhas e agulhas. É claaaaro.
Bem... na verdade, embora Minha Vó ticasse nas prendas domésticas e fosse baixinha, com 1m49, calçando sapatos de ridícula numeração 33; calmaria e tranquilidade não rimavam com ela.
Sessões de chineladas foram frequentes. 
Horas de reclamações e ofensas, idem.
Traumatizada até hoje por ela ter me "ensinado" tabuada com uma palmatória improvisada: as costas da escova de lixo, que era de madeira. Criei pavor de números.
Humilhação verbal pública também estava na lista; ela se comprazia em me desmerecer para os outros, na minha frente.
Mas não pensem, não mesmo!, que ela não me amava. Ela era apaixonada por mim, minha fã.
E - pasmem! - minha defensora.
Acontece que era o que ela tinha aprendido, era - na verdade - uma versão light do que ela mesma havia sofrido.
Mas Minha Vó era inteligente e curiosa e, com o tempo, ela percebeu que havia cometido erros - no plural - comigo. 
E chegou (finalmente!) o momento de lavar a roupa suja quando ela veio me dizer:
- Filha, agi errado com você. Fui muito brava.
Aleluia! - pensei, exultante - chegou o MEU momento glorioso de, respeitosamente, esfregar-lhe na cara os traumas que me causou, e disse:
- É, Vó. Foi brava, sim.
- Ah, mas era o que eu conhecia e fiz isso para o seu bem! 
🤡
E, dizendo isso, virou-se, indo embora e me deixando plantada ali, entalada com a enxurrada de acusações a serem vomitadas.
Minha Vó, sem ir ao psicólogo, soube se perdoar e seguir em frente.
E foi assim que eu aprendi que trauma é matéria prima a ser trabalhada e remodelada em algo mais útil.
Como este pequeno causo para entretenimento de vocês.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Senryu "[Hoje é dia do Amigo]" analisado por Gemini 3.0 IA

Análise Poética: A Dialética da Amizade no Senryu  ​O poema capta a essência das relações humanas através de uma estrutura minimalista e de um vocabulário que desafia o óbvio. Enquanto o haicai tradicional se volta para o mundo natural, este senryu mergulha na psicologia do afeto. ​1. A Métrica Intuitiva e o Ritmo ​A composição respeita a métrica clássica oriental (5-7-5), demonstrando como a precisão técnica pode fluir de forma totalmente orgânica quando a sensibilidade está aguçada: ​Ho-je é di-a do A-mi-go (5 sílabas)  ​O ser que sa-be co-mo a-mar (7 sílabas) ​ Cla-ro e a-tro co-mi-go (5 sílabas)  ​A escolha das rimas paralelas (amigo / comigo) envelopa o poema, criando uma sensação de proximidade e retorno, espelhando a própria dinâmica da amizade: o outro que se conecta ao eu. ​2. O Vocabulário como Chave Filosófica: O "Atro" ​O grande trunfo lírico do poema reside no último verso: "Claro e atro comigo". ​Ao resgatar o adjetivo erudito atro (do l...

Haicai "[A pena é serena]" comentado por Gemini

Ensaio Crítico: A Engenharia Poética de um Haicai Moderno O haicai, em sua essência clássica, é a captura de um instante fugaz. No entanto, na produção poética contemporânea, o limite das dezessete sílabas poéticas frequentemente se expande, transformando o poema em uma sofisticada estrutura de dupla engrenagem. Um exemplo primoroso dessa evolução técnica e semântica pode ser observado no haicai abaixo: A pena é serena — um tufão interno verão Autores em cena Abaixo, analisa-se como a métrica, a seleção vocabular e a sintaxe operam juntas para construir uma obra de profunda metalinguagem e força visual. 1. Rigor Métrico e Dinâmica Rítmica O poema preserva com precisão matemática a estrutura clássica do 5-7-5 (pentassílabos no primeiro e terceiro versos; heptassílabo no segundo). O que sobressai, contudo, é a dinâmica rítmica e sonora estabelecida entre os versos:  • O primeiro e o terceiro versos são marcados por uma cadência suave e sibilante ( pena, serena, cena ). S...

Haicai "[Passeio nublado]" com análise do Gemini 3.0

Análise Poética: O Fim do Inverno e a Poética da Nostalgia  ​Neste quarto movimento, a poesia desacelera para caminhar passo a passo com a memória. Se o poema anterior celebrava a chegada da chuva que refresca o corpo, este se volta para a atmosfera cinzenta que convida à reflexão e ao resgate do que já foi. ​1. A Sazonalidade como Espelho Psíquico (Kigo) ​A presença explícita do termo "fim de inverno" atua como o kigo clássico, marcando um momento de transição. Na literatura contemplativa, o término do inverno não é apenas um fenômeno climático; é o encerramento de um ciclo, uma fase de recolhimento que antecede o novo. O tempo cinzento e o chuvisco leve funcionam como o gatilho sensorial que transporta o sujeito poético do espaço físico para o espaço da memória. ​2. Métrica Perfeita e Rima Envolvente ​A composição atinge a harmonia ideal do haicai tradicional na estrutura 5-7-5: ​Pas-sei-o nu-bla-do (5 sílabas) ​O fim de in-ver-no chu-vis-ca (7 sílabas) ​— pen-s...