Sempre que falo que fui criada com Minha Vó, é claaaaro que as pessoas visualizam uma senhorinha baixotinha, fofinha, risonha, com dotes culinários de nível avaçado a fazer inveja a qualquer masterchief e mestra nas linhas e agulhas. É claaaaro.
Bem... na verdade, embora Minha Vó ticasse nas prendas domésticas e fosse baixinha, com 1m49, calçando sapatos de ridícula numeração 33; calmaria e tranquilidade não rimavam com ela.
Sessões de chineladas foram frequentes.
Horas de reclamações e ofensas, idem.
Traumatizada até hoje por ela ter me "ensinado" tabuada com uma palmatória improvisada: as costas da escova de lixo, que era de madeira. Criei pavor de números.
Humilhação verbal pública também estava na lista; ela se comprazia em me desmerecer para os outros, na minha frente.
Mas não pensem, não mesmo!, que ela não me amava. Ela era apaixonada por mim, minha fã.
E - pasmem! - minha defensora.
Acontece que era o que ela tinha aprendido, era - na verdade - uma versão light do que ela mesma havia sofrido.
Mas Minha Vó era inteligente e curiosa e, com o tempo, ela percebeu que havia cometido erros - no plural - comigo.
E chegou (finalmente!) o momento de lavar a roupa suja quando ela veio me dizer:
- Filha, agi errado com você. Fui muito brava.
Aleluia! - pensei, exultante - chegou o MEU momento glorioso de, respeitosamente, esfregar-lhe na cara os traumas que me causou, e disse:
- É, Vó. Foi brava, sim.
- Ah, mas era o que eu conhecia e fiz isso para o seu bem!
🤡
E, dizendo isso, virou-se, indo embora e me deixando plantada ali, entalada com a enxurrada de acusações a serem vomitadas.
Minha Vó, sem ir ao psicólogo, soube se perdoar e seguir em frente.
E foi assim que eu aprendi que trauma é matéria prima a ser trabalhada e remodelada em algo mais útil.
Como este pequeno causo para entretenimento de vocês.
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