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Amizade Eterna - monólogo de Bárbara Hellen Bastos da Costa

AMIZADE ETERNA
Monólogo



Personagem única
Anne Wagner

Cenário
Um quarto com uma cama, piano, mesa e cadeiras.

Época
Atual

Ação (Local)
Petrópolis



PRIMEIRO [E ÚNICO] ATO

ANNE vem entrando pela porta principal, andando lentamente com a ajuda de uma bengala. Vinha tristonha, sem cumprimentar ninguém. Concentrava-se apenas em uma música do folclore alemão, na qual usaria um português carregado de sotaque. Sobe no palco. Organiza alguns livros que estão em cima da mesa e leva uma partitura para o piano.
(À plateia)

ANNE: Beethoven era mesmo um gênio! Imaginem, ele compôs sinfonias lindas sendo surdo. 
(Faz um sinal negativo com a cabeça)
Desculpem se não me apresentei antes! Meu nome é Anne Wagner e, se ainda não notaram, sou alemã.
(Afasta-se do instrumento e caminha em direção à plateia)
Lembro-me muito bem da minha terra! Das coisas boas (comidas, danças, mitos) e das coisas ruins que imperaram em minha época - fome, desemprego... e Hitler. (Muda a expressão do rosto) Hitler foi a maior desgraça do povo alemão; milhares de pessoas morreram para as ordens do nazista, principalmente seus maiores inimigos: os judeus. (Risonha) Bem... mesmo sendo alemã, eu era filha de judeus e fiel seguidora do judaísmo, isso só me fazia uma inimiga do Führer (grita em um tom irônico). Na época, eu não me importava. "Que se danem os nazistas!! Donnerwetter noch mal*!" Não ligava para os nazis, para a guerra, para a matemática, história ou geografia.
(Meiga)
Mas eu amava o piano. Amava, não!! Amo. E também amava minha amiga Klara. Ela era o que os nazis chamavam de Raça Pura. Ariana legítima.
(Andando com ajuda da bengala) Às vezes, eu perguntava o que ela achava do Partido Nacionalista Alemão e ela me respondia, em um tom irritado, sempre a mesma coisa. (Para, e começa a imitar a amiga) "Isso é uma porcaria, Anne. Eles são loucos!".
O tempo passou e eu percebia que cada dia ela ia ficando diferente. Roupas, penteado, sapatos... Tudo não lembrava mais a Klara que eu conhecia, porque a cada dia ela fala mais de Hitler. Gritava! Não me dava mais atenção, tudo era Hitler, nazismo, antissemitismo... (Grita revoltada) O QUÊ?!?? Antissemitismo, Klara? O que deu em você? Ela respondia com gritos e, em seguida, ia embora. Depois, no dia seguinte, ela estava lá novamente. Mas, naquele dia, ela não voltou. E no outro... (desesperada) Telefonava, ia em sua casa, na escola. Nos poucos lugares onde judeus podiam ir, eu a procurava. (Faz um sinal negativo com a cabeça) Nada. (Triste).
Uma semana depois, policiais da Gestapo invadiram minha casa e levaram meus pais e eu. Amontoaram-nos em vagões de trem que rumavam para longe, cheios de judeus. (Desespera-se) Choros, gritos, Um gottes Willen**! Nada. 
O destino era um campo de concentração perto de Hannover. Aí, os gritos de horror aumentaram. Agora era medo de morrer nas mãos dos nazistas, pois mesmo querendo esquecer, todos sabiam o destino cruel wue nos esperava.
Em uma sala escura, todos foram reunidos e, para minha grande surpresa, Klara estava lá (em um tom perplexo) Seus cabelos estavam presos, roupas escuras, expressão séria (apavorada). De dar medo a qualquer um. Até mesmo eu, que a conhecia desde menina. (Imitando a amiga e, com ajuda da bengala, apontava para pessoas invisíveis). Enquanto fiscalizava [avistava] todos, um por um, ela passou por mim. Olhou-me por alguns segundos e, como se nada tivesse visto, continuou sua fiscalização [análise] minuciosa.
"Sala de banho feminino" (aliviada) Por pouco! Achei que ia morrer naquele momento (aproxima-se da mesa enquanto fala). Corte de cabelo, roupas sujas e amarrotadas, trabalho forçado, alimentação insuficiente, água precária, mortes a cada dia... e Klara presente em tudo. (Em um impulso, joga os livros da mesa ao chão, desequilibra-se e quase cai).
Droga de amizade! Droga de vida! Ela nunca foi minha amiga! Nazista, ela é só isdo! Nazista!! Donmenuetter noch mal!* (Senta-se na cadeira e coloca as mãos no rosto)
Meus pais tombaram diante das armas nazistas. Eu estava sozinha. Com 17 anos, estava só, à mercê dos nazis. (Chora por uns segundos, depois para e muda de expressão)
Aí aconteceu. Uma noite  enquanto dormia, ou tentava dormir, um vulto entrou e colocando as mãos sobre minha boca, levou-me para fora dos dormitórios. E fui arrastada para um dos aposentos nazistas. Estava tão... nervenmässing*** que quase desmaiei. Mal entrei [cheguei] e o vulto rapidamente fechou a porta e deu duas voltas na chave, depois jogou para trás o capuz que lhe cobria a cabeça e, para minha surpresa, era Klara. 
Pensei em gritar, mas ela me acalmou e contou-me tudo. Falou que, no dia seguinte, todos os judeus seriam mortos para completar a "solução final" e ela falou que, quando isso ocorresse, estaria bem longe dali e entregou-me roupas de nazista. (Levanta-se da cadeira com ajuda da bengala e vai para perto do piano).
Hesitei, é claro! Jamais usaria aquelas coisas. Mas Klara estava tão confiante que acabei vestindo e, com a ajuda de Klara, fiquei igual a uma nazista. Depois, entregou-me uma boksa com uma muda de roupa e documentos falsos. Também me deu algum dinheiro para as despesas.
Estava prestes a sair, quando não resisti e voltei para dar um abraço grato em Klara, enquanto dizia: "Muito obrigada, Klara, minha AMIGA!"
Atravessei  os portões sem ser percebida e, finalmente, quando me senti fora do perigo, longe do campo onde tinha sofrido tanto, disse para mim mesma" "Ich dank dir für all das gute und Liebe und schöne"****
Meses depois, fiquei sabendo que os aliados haviam tomado o campo e quando divulgaram os nomes dos nazistas mortos, Klara Goebells apareceu na lista. Chorei enquanto dizia "Obrigada, AMIGA!"
(À plateia
Alguém, por favor, me entenda. Durante anos, tenho vivido com essa culpa em meu voração. Aquela amizade que eu tanto tinha duvidado, insultado e esbravejado contra, achando que nunca havia sido amizade verdadeira, foi justamente ela que me salvou da morte naquele campo. 
Depois daquela noite, nunca mais a vi e, às vezes, quando sonho, vem-me aquele momento em qie Klara salvou minha vida, pondo em risco a sua própria.
Há 60 anos eu agradeço em pensamento e no meu coração a Klara, minha AMIGA, e hoje, na frente de todos vocês, venho aqui para gritar este hino em louvor da amizade:

Klara, obrigada pela minha vida. Se estou aqui agora é graças à sua corajosa amizade.

(Aproxima-se do piano e começa a tocar uma triste melodia de Beethoven enquanto o palco vai, gradativamente, escurecendo)

F      I       M 


* Raios o partam!
** Oh, pelo amor de Deus!
*** nervosa
**** Obrigada, por tudo que é bom, amado e belo.
..............

Este monólogo foi escrito pela aluna, que na época cursava o 7⁰ ano (atual 8⁰)  EFII, que - após dar-lhe a nota máxima - fiquei para digitar e revisar. Mas... a vida é uma caixinha de surpresas e não pude devolver o trabalho da aluna. Infelizmente, o original está se deteriorando e terei que me desfazer dele, no entanto, para não perder esse texto, registro-o aqui sob o nome de sua autora.

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