Ele disse que "tudo bem" - e partiu.
Não olhou para trás, nem ela o chamou de volta.
Na verdade, ela não o queria mais.
Um alívio dolorido em vê-lo sair, saindo da sua vida
e deixando um vazio que ela não sabia como preencher.
Mas isso são palavras tolas, todas.
Porque o que ela mais sentia mesmo mesmo
era uma sensação enorme de intensa e assustadora liberdade.
- queria tê-lo ainda ali, machucativo como ele só, com ela,
a fim de melhor justificar o desespero e a angústia
o horror de se saber sobre os próprios pés.
Sem autocomiseração nem ou além.
Gaitas de foles e coroas de ervas madrugando manhãs insones
palavras incompreensíveis entoadas em paganismos célticos
dedos cortados em beiras de baldes teclando dores exiladas
ciprestes podados ciosamente nos campos cognitivos
ele, o enojador, a se afastar mais silenciosamente
(mas ainda ali.... talvez que esperando um chamado?)
É hora de ir. Prosseguir. Desligar o congelador.
Deixar o iglu derreter em cima das laranjas e do arroz.
"Não vá para o passado, fique no presente."
- foi o presente que lhe deram ainda de há pouco.
Coração dela vai bem, valendo a preocupação.
Pulmão, também. Rins. Baço. Pâncreas. Timo. Ovários.
Todas as vísceras funcionando e pulsando vida.
Os sonhos atraem moscas na padaria.
(muito açúcar por sobre eles;e sonhos não são tão doces assim -
cadê os sonhos das minhas infâncias cobertos com leite em pó?).
"O horror pode surgir indo comprar pão na padaria."
mas é o que ela diz a quem quer: as pessoas valorizam a vida
porque desconhecem o que haja na morte.
Ela, apeando-se da noite abonançada.
- Testinho, seu Nojo.
(Tetê Macambira)

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