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Leão seria seu nome II


16.11.13 -  22h40

Cubículo que têm a ousadia de chamar de quarto quente.
Ventilador nem dá conta.
Viro-me na cama e tento atrair sono.
Celular toca.

"On the first part of the journey I was looking at all the life
There were plants and birds and rocks and things
There was sand and hills and rings"
Ele.
Atônita, agradavelmente atônita, atendo:
- Oi?
- Oi... (voz meio arrastada... indecisão ou  outra coisa?) você está em casa?
- Estou a 6 horas de distância da minha casa.
- Onde?!?...
Digo a cidade quente feito o inferno onde fui parar. 
Ele hesita.
Saudosa, peço-lhe notícias - quero ouvir-lhe a voz, saber dele.
Amenidades, superficiais e ligeiras.
E o ataque:
- Vou ser direto: você está grávida?
- Nada ainda.
- "Nada ainda"?
- Nada de ciclo ainda.
- Ah!...
Despedidas rápidas, ligeiras.
Iludida, achando-o preocupado comigo.

23h20 - O primeiro sms de um rosário infindável chega:
Ele: Você já tentou o teste de farmácia?
Eu: Ainda não. Por que esse súbito interesse?
Ele: O interesse não é súbito. A expressão dele, sim.
E, tem-se de admitir, tenho direito de saber
- é algo que vai mudar minha vida.
Eu: Não me vinha esse teu interesse. 
Claro que tem direito. Na verdade, um prazer dividir contigo.
Ciclo há de chegar até dia 20.
Ele: Boa sorte. Leão.
(nunca chamá-lo Leo,
evitar refri para ele)
Eu: ... pode ser psicológico, 
sentindo sofrendo detalhezinhos
coisinhas diferentes
Ele: Tipo:
Eu: Nem de café el@ gostará;
possível ser genético
Ele: Sinal inseguro.
Eu: Bebendo, passo mal agora.
Autossugestão, quem adivinha?
Exame: definível, só ele.
Ele: Que horas chega amanhã?
Eu: Sete da noite. Na estação.
Ele: Posso esperar você em sua casa.
Exame na farmácia mais próxima?
Eu: Poderia ser.
Mas, portas trancadas.
Noites gêmeas ausente.
Ele: Dorme bem.
Eu: Única coisa que faço - dormir demais
Culpa do calor?
Nas beiras de estrada, reses mortas
- mortas e ressequidas.
Ele:
Eu: Fica bem.
Ele: Tentando. Cheia cabeça, coração confuso.
Ir sozinho a uma praia,
suspirar fundamente,
beber uma gelada.
Eu: Ela e você, tudo bem?
Eu, possível emprenhada, em sua "cheia cabeça"?
Ele: 
 Sintonias diferentes. Questão nossa.Outra coisa e questão minha.
Eu: Questão nossa?
questão sua?
- não entendo essas questões.
Ele: Mesma questão, as duas.
Uma, eu contigo.
Outra, eu com ela.
Eu: "coração confuso" = você e ela;
"cheia cabeça" = nosso provável filho
- "confuso"? - paixão desconfunde;
-  filho: que nos seja leve.
Ele: Jamais será um peso
- mesmo Lionesse.
Mas em confirmar: informá-la.
Ela no direito (óbvio) de mais nada querer.
Eu: Faz de conta assim:
ciclo meu vermelhou
Agora, corra para felicidade.
E adeus.

Celular não tardou:
"
The first thing I met was a fly with a buzz
And the sky with no clouds
The heat was hot and the ground was dry"
Ele. Não cria nessa coincidência.
Claro que não vieram, as regras.
Mas se há tanto desespero por elas, crie-as.
Esqueça-se do filho planejado e concebido (?)
Desculpas. Apologias. Perdões.
Que o filho seria prioridade,
que a nova namorada teria de entender
que que que.... E que.

Sms.
Ele:  Ficarei feliz por nosso felino
mas não posso mentir:
perdê-la tornará meu coração 
em uma pequena pedra.
Eu: Eu não estando esperante:
coração, tremendo matacão.
Se negativo for,
alívio seu seja a última coisa.
Deixe-me só.
Ele: Desculpa. Estou sendo egoísta.
Eu:
Ele: Não estou conseguindo pensar direito
Fui injusto com você.
E você não merece isso.
Eu: 1 - ...
2 - Foste.
3 - Não mesmo.
Ele: Mas me desculpe. não vai se repetir.
Eu:
Ele: Assim. acabei de reler mensagens.
Cara, de boa.
Entendo seu  mau humor,
mas apenas fui sincero.
Achei esperasse isso de mim.
Eu: Egoísmo difere de sinceridade.
Por que só se é sincero quando para magoar?
Ele: Fingir que não sou egoísta seria falta de sinceridade.
Muito simpático bancar o desprendido
e tudo poderia estar bem.
Mas não seria sincero.
Não menosprezei ninguém.
Eu: 
A mim, somente, então.
Ele: Não. Apenas disse o que sinto.
Desculpas. Boa noite.

Celular ataca novamente:
"
But the air was full of soundI've been through the desert on a horse with no name
It felt good to be out of the rain
In the desert you can't remember your name
'Cause there ain't no one for to give you no pain"
Ele (alguma dúvida?). Deixando tocar (gosto da música)

Sms:
Ele: Atende.

E a banda America anuncia:
"The ocean is a desert with its life underground
And a perfect disguise above
Under the cities lies a heart made of ground
But the humans will give no love
"

E mais apologias. E mais desculpas. E mais e mais.

Sms. Mentira funcional a aplicar.
Eu: Faça a festa: ciclo chegou.
ADEUS.
Ele: Não se trata de festa. Se trata de algo que eu também perdi. 
Pode não acreditar, mas é sincero.

E a banda toca.
"see I've been through the desert on a horse with no name
It felt good to be out of the rain
In the desert you can't remember your name
'Cause there ain't no one for to give you no pain"
Que eu poderia até não acreditar, mas era verdade: estava sentindo.
 Não, eu não acredito.  
Ele sabia que era assim com ele.
Bom, se isso bastava a ele, por que se preocupar comigo?
Boa noite.
Boa noite.

"La, la, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la, la, la"
Não atendendo. 
Querendo entender.
Querendo calma.
Querendo paz.

Sms
Ele: Querendo me desculpar.
Eu.

                             Eu.

"Horse with no name", by America

Comentários

  1. Eita que pra mim isso será uma odisséia.. vou acompanhar cada capitulo...

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