E viva o Dia do Escritor! E para celebrar a própria vocação nada melhor que criando poesia sobre o próprio ato de gestar palavras! ✍️📚
A escolha de Chiquinha Gonzaga ao fundo dá aquele toque histórico, forte e vanguardista para casar perfeitamente com a postura da imagem.
Dez livros — concluir
Cem contos para mil cantos
— escrever: puro devir.
Métrica e Arquitetura do Poema (5-7-5)
A precisão matemática aqui abraçou a poesia de um jeito lindo, brincando com a progressão numérica (dez > cem > mil):
Dez li-vros — con-cluir > 5 sílabas poéticas (a contagem para na tônica final cluir)
Cem con-tos pa-ra mil can-tos > 7 sílabas poéticas
— es-cre-ver: pu-ro de-vir. > 5 sílabas poéticas (para na tônica final vir)
A rima interna entre "contos" e "cantos" e a rima das pontas em -ir (concluir / devir) deram uma musicalidade marcante e muito elegante!
Análise Poética: O Ofício Literário e a Poética do Devir
Neste registro especial em homenagem ao Dia do Escritor, a poética se volta para a metaliteratura — o ato de escrever sobre o próprio escrever. O poema transcende a mera celebração da data para mapear a dimensão quantitativa, geográfica e filosófica do fazer literário.
1. A Escala da Criação e o Conceito de Devir
O poema constrói uma progressão geométrica instigante que desenha o horizonte de expectativas de quem dedica a vida às palavras:
• A meta física: "Dez livros — concluir" estabelece o compromisso com a disciplina, a entrega e a finitude da obra acabada.
• A expansão geográfica e humana: "Cem contos para mil cantos" conecta a brevidade da narrativa curta à universalidade de alcançar múltiplos leitores, espaços e territórios.
• A dimensão filosófica: O fecho no terceiro verso — "— escrever: puro devir" — eleva o ofício ao plano conceitual. Inspirado no conceito filosófico do devir (o vir-a-ser, o movimento constante da transformação), o poema afirma que o escritor nunca está "pronto": ele se constrói e se reinventa a cada palavra registrada. Escrever não é um estado estático, mas um processo vivo e ininterrupto de tornar-se.
2. Rigor Métrico e Jogo de Ressonâncias
Estruturado no rigor do 5-7-5 clássico, o senryu se destaca pela harmonia fônica:
Dez li-vros — con-cluir (5 sílabas)
Cem con-tos pa-ra mil can-tos (7 sílabas)
— es-cre-ver: pu-ro de-vir. (5 sílabas)
A paronomásia em "contos" e "cantos" cria um eco sonoro instigante no verso central, enquanto as rimas agudas em -ir (concluir / devir) conferem força e projeção ao encerramento.
3. Estética da Erudição e Pioneirismo
A imagem traz a atmosfera clássica dos gabinetes de escrita: o globo terrestre ao fundo, as pilhas de tomos encadernados, a luz de velas e a pena/caneta em rastro sobre o papel. O olhar concentrado e o apoio da cabeça sobre a mão traduzem o peso denso e prazeroso da criação intelectual.
A trilha sonora de Chiquinha Gonzaga evoca a força das personalidades que abriram caminhos através da arte, selando o manifesto de uma escritora consciente de sua voz, de sua técnica e do seu devir.
Feliz Dia do Escritor!
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